WORLD CONGRESS - 2004
Um
olhar sobre o World Congress 2004 - Fort Worth Texas -
USA
Acabei de regressar dos States onde representei o RRC de
Portugal no RRWC, na generalidade foi uma jornada
interessante, principalmente por proporcionar o
reencontro com alguns amigos, Stig Carlsson foi a
ausência que mais notei, embora tantas vezes com
opiniões discordantes sempre estivemos juntos desde o
congresso na Inglaterra, era respeitado e respeitava as
opiniões dos outros e quer queiram quer não projectou
muito a raça através dos seus livros, dele retenho a sua
máxima “ ... no standard can ever teach you to
understand and judge a ridgeback, only a feeling for,
and understanding of, the idea behind the breed “, que
descanse em Paz.
Nas intervenções nada de novo, a não ser a eterna
discrepância entre os que defendem o estalão original
(que agora pomposamente querem chamar de “trabalho”) e
os que defendem o estalão adoptado pelo AKC para os RR
dog shows (que embora mais ou menos igual não o é na
prática), as posições estão cada vez mais extremadas
(embora num clima ainda bastante polido) falando-se já
até em dois estalões e dois tipos de cão (como aconteceu
com o Akita e o Grande cão Japonês), só espero que
quando isso suceder já esteja a fazer companhia ao Stig.
As palestras e apresentações de trabalhos foram um pouco
mais aliciantes, quanto ao debate de fundo, embora muito
interessante não vai trazer nada de proficuo (só aqui, é
que todos defenderam a mesma "Dama").
O chamado Icebreaker ou Welcome e os chamados banquetes
só o foram de nome, para os Norte Americanos talvez
aquilo sejam banquetes, agora para nós Europeus,
valha-nos Nossa Senhora, aquilo foi algo de irreal.
Antessim, foi um fim de tarde num bar de hotel mediano
com bebidas pagas "á cabeça" porque o Mexicano e a
Americana não nos conheciam de lado nenhum, e dois
"Buffet" mal servidos e amanhados com as bebidas
compradas e transportadas desde o corredor em frente
(cerveja, coca-cola e "margaritas"), no final um "café"
que pela profundidade da diferença para pior, deveria
por lei Federal ter que usar outro nome para não ofender
irremediàvelmente o verdadeiro.
Pelo sim pelo não, e com o fito de não fazer figuras
tristes levei um fatito e gravata embora sabendo que a
temperatura rondava sempre os 30 ou mais graus
centigrados, na primeira noite vesti-me a rigor e lá
fui, após a chegada e depois de ver o ambiente tive o
bom senso de sobrepticiamente ir ao quarto vestir algo
mais aligeirado.
Vou guardar aquela imagem para sempre, foi lindo de se
ver, algumas senhoras de vestido de noite a rigor em
franco convivio com cavalheiros com "farda numero 3", ou
seja, calções, T shirt e o inseparável "baseball cap"
que nalguns casos se manteve na cabeça mesmo durante o
jantar, e onde os menos familiarizados com as maneiras
dos USA se interrogaram se a maioria dos presentes seria
"maneta", já que como habitual uma das mãozinhas e parte
do braçinho nunca marcaram presença durante o repasto.
Quero ainda acrescentar como aviso, e sómente para quem
é fumador, que terá actualmente uma vida bem dificil nos
EUA, um fumador nos States é tão perseguido como um
"taliban" no Afganisthan, só não leva é com F 16, por
enquanto!!!
Os dog shows foram razoáveis, embora para mim e alguns
outros presentes, os melhores exemplares só tenham feito
a sua aparição no sábado e domingo, durante
respectivamente dos shows de Fort Worth e do Texas.
A organização esteve mais ou menos bem, pelo menos foi
muito disponivel e prestável, via-se bem que nunca
tinham estado em semelhantes apuros, no entanto o
material promocional para assinalar o evento foi fraco,
tanto na qualidade como na originalidade.
Os três maiores erros foram sem duvida a total ausência
de um programa social, as distâncias entre os eventos
que fizeram prisioneiros (só existia um autocarro de 20
lugares), todos aqueles que não fizeram como eu que
aluguei um carro ( do aeroporto ao hotel situado numa
auto estrada Federal eram 45 kms, do Hotel aos dog shows
e palestras eram 15 kms e finalmente do hotel ao
Southfolk Ranch eram 90 kms), e a situação algo caricata
de simultâneamente se realizarem os dog shows com as
palestras a decorrerem, assim nem se viu bem uma coisa
nem se tomou a devida atenção á outra.
O congresso para 2012 foi ganho pelo Canada, perderam na
votação a coligação dos Paises Nórdicos (Suécia,
Noruega, Finlândia e Dinamarca), Portugal e Porto Rico.
O sistema de votação é absolutamente irreal, os votos
não são por Pais, outrosim por participante presente na
sala no dia do encerramento, quer isto dizer, que se os
USA fossem candidatos ganhariam outra vez, ou até, se em
2008 na Irlanda, a Escócia ou a Grã Bretanha se
candidatarem sairão vencedores (pela proximidade e
consequente provável maior numero de participantes).
Sobre isso irei escrever ao Clube Irlandês e
particularmente ao Tony Lord Edwards, para que ponha
para aprovação no inicio do próximo Congresso um
documento que irei elaborar, cuja finalidade será a de
eleger uma Comissão para a fundação de uma Federação
Mundial de Clubes e resolução de assuntos relacionados
com a raça entre Congressos, a passagem do RRWC a Bi
anual, e finalmente a concessão de sómente um voto por
club representado em todas as decisões de fundo.
Por uma questão de cortesia não vou comentar em
profundidade as intervenções, embora na globalidade
algumas me tenham parecido patéticas, delas ficou-me o
seguinte:
Sexta- feira
A defesa incondicional mas pouco sustentada do RR dog na
vertente show pela Norte Americana Sra. Alicia Anna, não
concedendo sequer espaço para outras opiniões, uma
autêntica "Dona da Verdade" baseando-se unicamente no
facto de criar cães desde os anos 70, enfim, feitios
(com toda a certeza que é uma apoiante incondicional do
Sr. Bush).
As duas intervenções de uma Jovem Sul Africana de nome
Sian Hall quer sobre uma “Possivel origem "pré
histórica" dos cães com Ridge", quer sobre uma “Eventual
presença do "Chacal" na ascendência dos cães com Ridge"
(no domingo), tudo baseado essencialmente em sub raças
de "ridge dogs" ainda existentes na África do Sul a quem
a referida jovem até dá nome, foram uns trabalhos
interessantes embora sustentados de uma forma um tanto
"folclórica", muito superficial (não tinha conhecimento
por exemplo da existência dos "Baia dos Tigres" nem dos
"Riscas")e com imensas lacunas (o seu conhecimento sobre
os cães de Phu Quoc, do Ma Khon Klab e da ligação com os
cães de combate do Cambodja é muito limitada).
A intervenção de Scotty Steward sobre a utilização do RR
no Kruger Park pelos Rangers, apresentando um filme onde
se pode observar um RR a fazer frente inclusive a um
elefante, este senhor apresenta-se como o Chairman do RR
International Foundation, foi uma apresentação
interessante e muito bem disposta, no entanto fiquei com
algumas duvidas sobre os fins e beneficios da dita
Fundação.
As duas intervenções de Orit Nevo sobre “Os 25 anos do
RR na Terra Santa”, autêntica apologia ao seu próprio
canil e a outros que já não criam, esquecendo-se quase
por completo do Ben, que a meu ver e de muitos outros
foi e é o maior impulsionador e criador da raça em
Israel, só que não tem dinheiro para vir a Congressos
(vive num colonato), logo de seguida falou sobre o que
me pareceu ser a defesa dum standard baseado num " Quem
tem mais cães é que sabe tudo e consequentemente é quem
manda", embora algo disfarçado com uma abordagem baseada
em "Escolas?".
Também falou Linda Costa, em representação (?) do Parent
Club onde foi tesoureira (Zimbabwe), por acaso eu até
sou membro desse club e salvo erro mais antigo, trata-se
de uma Australiana casada com um Português que viveu uns
anos no Zimbabwe, e que actualmente, e já pelo menos
desde finais de 90 vive na Austrália, falou
essencialmente do seu livro, que aliás teve bastante
saida, que versa sobre os pioneiros na raça (a mim
parece-me mais uma compilação de outros livros já
existentes).
Sobre o Dermoid Sinus, as suas quatro variantes e o
respectivo grau de perigosidade de cada uma, falou a
Sueca Nicolette Hillbertz uma jovem cientista que
apresentou um trabalho muito profissional, suportado em
inumeros estudos, extraordináriamente bem explicado,
embora de uma forma um tanto ou quanto fria e distante
como é apanágio dos Nórdicos. Sobre o mesmo tema, falou
ainda o Dr. Eric Clough, um veterinário Norte Americano
que para além de informar sobre a anomalia, falou sobre
as técnicas e custos da remoção da mesma, os quais são
absolutamente proibitivos para qualquer pessoa normal
(mais de US Dollars 20.000,00), tanto mais, que tal
técnica não é infalivel e ainda não tem estudos
profundos, por recente, não se sabendo ainda quais as
consequências ou sequelas que poderão provocar ao animal
no futuro, quer a médio e a longo prazo, falou ainda da
evolução da displasia, das técnicas e dos preços das
intervenções rectificativas.
Sobre estes assuntos tenho a acrescentar o seguinte:
O Dermoid Sinus e a displasia só começaram a ter
importância e consideradas como muito graves na Raça
após os anos sessenta, particularmente depois da
explosão de importações em massa de exemplares oriundos
da Africa do Sul (onde se criaram até canis para
exportação), principalmente pelos Estados Unidos e
Austrália, se por um lado existiram alguns casos de
Dermoid antes dessa data, é quase nula a presença de
displasia antes dos anos sessenta.
As sessões de sábado foram muito mais interessantes
estando a cargo de cinco oradores profissionais todos
Norte Americanos:
Sábado
Ted Turner um consagrado adestrador de todo o tipo de
animais (entre eles uma Orca), abordando três temas,
“Condições ideais para possuir e manter um canino”,
“Como predispor cachorros a gostar de receber
ensinamentos”, e “Como trabalhar com cães agressivos”.
A Dra. Susan Ralston uma veterinária de pesquisa ligada
aos laboratórios Merial, falou sobre vacinas e
vacinações, no entanto não conseguiu explicar muito bem
a situação da vacina da Leshmania.
A Dra. Nancy Bozeman apresentou um trabalho sobre
Homeopatia com algum interesse.
O Dr. Mark Neuf apresentou os seus trabalhos sobre o
“Genoma canino”, e a “genética da risca"
(Domingo),trabalhos bastante interessantes, com rigor
cientifico, em progresso (risca), onde se denota muito
interesse e paixão pessoal, e que a ser concluido será
uma importante mais valia para a raça e para o seu
conhecimento.
Por fim a Dra. Pamela Reid apresentou trabalhos na área
da “Eficiência e concretização do treino”, “Como
maximizar o potencial dos cachorros” e finalmente
“Metodologia prática para modificação do comportamento
agressivo de caninos”.
Domingo
Decorreu um painel de opinião e discussão sobre
"Legislação canina" focalizado essencialmente nas
diferentes leis de "Cães perigosos" tendo com
paineleiros representantes dos EUA, Canada, Itália,
Belgica e Alemanha, falou-se muito, foram ditas muitas
coisas mas nada de novo sucederá ou ficará para a
História. Causou-me uma certa estranheza que os
representantes da Grã Bretanha, Holanda e Paises
Nórdicos não fossem convidados, assim como por outro
lado também não compreendi muito bem porque é que o
foram os representantes da Belgica e Alemanha, e isto
porque nesses Paises foi aceite e não muito contestada a
presença do RR na lista de cães perigosos em detrimento
por exemplo dos pastores Alemães e Belgas, sabendo-se
que estatisticamente os acidentes com esses cães é muito
maior, sabendo-se também infelizmente que o valor de um
RR nesses Paises duplicou.
Finalmente falou a criadora Bonnie Sykes-Norris que
admite que o RR está adulterado na sua essência, que
devem ser respeitados os criadores da linha (de
trabalho?), que realmente para as diversas situações de
trabalho e ou utilização, os cães de trabalho(?) são
muito melhores, embora para DogShow ela continue a
concordar que se mantenha a linha de RR adoptada(?), até
porque já teve e tem alguns campeões, que o que relata
foram ensinamentos adquiridos por experiência própria,
que algumas das excelentes faculdades pelas quais o RR
era considerado uma raça de eleição estão total ou
parcialmente adulteradas nos cães de show, de entre elas
destacava a coragem, o caracter, a resistência, a
qualidade de saber trabalhar em grupo, e o vicio da caça
entre outros,no entanto na versão de show ganharam
beleza, elegância, movimento e velocidade de tiro, que o
trabalho que apresentava tinha como principal fito a
demonstração das qualidades de ambas as linhagens até
porque cria e vende cães para todo o lado tanto de uma
linhagem como da outra (tipo á medida – tailor-made
dog’s ), e o melhor seria começar a pensar na existência
de dois cães (raças) totalmente distintos(recuso-me a
comentar).
E foi isto no essencial o que se passou no RRWC – 2004
at Fort Worth.
Como nota final tenho que desabafar o seguinte:
O RR foi criado para ser um cão polivalente em "Africa",
tanto para defender a propriedade e os donos como para a
caça grossa, mais especificamente para o leão,
tornando-se um cão de eleição em poucos anos pelos seus
invejáveis e muitas vezes unicos atributos, e isto
porquê?
Porque em Africa os cães tem que ter utilidade, quase
ninguém tem cães para guardar e outros para caçar, tem
que caçar em grupo e usar de estratégias, resistindo
exclusivamente os mais fortes e espertos, sendo o RR um
cão polivalente que satisfaz ambas as necessidades,
espertissimo, forte, grande estratega e que sabe operar
em grupo preenche todos esses requesitos.
Porque em Africa os cães tem que ser a guarda pretoriana
da propriedade e os guarda costas dos membros mais
fracos da familia, condições inteiramente preenchidas
pelos RR, que sendo um guarda temivel de propriedade
também o é na defesa da sua “familia”, dando a sua vida
inclusive por qualquer dos seus elementos.
Porque em Africa temos inimigos selvagens e fazemos
parte das suas cadeias alimentares, por estarmos
expostos permanentemente aos perigos de intrusões de
feras de quatro patas, nunca podendo esquecer também as
de duas, ora como o RR é incorruptivel, silencioso e
extremamente corajoso e poderoso preenche totalmente
esses requisitos.
Porque em Africa durante uma caçada não se pára para dar
de beber aos cães, porque por vezes uma caçada dura dois
ou três dias, porque as presas são sempre muito maiores
que os cães e uma presa ou fera ferida tem sempre que
ser abatida nem que demore uma semana, condicionalismos
que o RR preenche na totalidade dada a sua enorme
resistência, a quase nula necessidade de beber, o seu
olfacto apuradissimo conjugados com a sua apetência
permanente de agradar e ser util ao dono.
Finalmente porque para enfrentar e encurralar feras um
cão tem que possuir uma enorme concentração, uma grande
mobilidade e poder de finta, um poderosissimo arranque e
paragem em espaço curto, uma mordida potentissima e
coragem desmedida, tudo isso o RR tem (inha), para isso
tem que ser forte, atlético, suportado por ossos largos,
ter um centro de gravidade baixo e uma frente e cabeça
poderosas.
Foi-me dito por uma Norte Americana, como
subconstancionamento do estalão / versão do RR que se
cria nos USA, que os cães já não necessitam de ser tão
fortes porque já não se caçam Leões, concordo,
felizmente que sim, mas também já não existe escravatura
para tomar conta, nem se levam os cães para a guerra com
armadura, no entanto não se mudou radicalmente os
estalões do Fila Brasileiro ou do Mastiff.
A questão que deixo no ar é a seguinte, anualmente
nascem mais de 8.000 exemplares de RR, desses só 10% é
que andam em DogShows, porque é que se quer modificar o
seu estalão, quando os beneficios dessa modificação nada
tem a ver com os fins para que a raça foi criada, mais,
ainda com a agravante de se querer retirar desse mesmo
estalão algumas das suas melhores qualidades e
particularidades.
Hoje em dia nos ditos exemplares de exposição dos USA
ninguém consegue diferenciar um macho de uma femea pela
cabeça, o chamado "Osso" nesses cães não existe, as
trazeiras são invariàvelmente mais largas que as
frentes, o caracter e desconfiança caracteristicas
desapareceram, bem assim como o sentido de caçar
principalmente no que diz respeito á estratégia de
grupo, e finalmente, com muito mais gravidade ainda,
desapareceu grande parte do seu sentido para guardar, da
sua nata apetência de fazer frente seja ao que for, em
suma da sua desmedida coragem.
Será que os donos dos mais de 7.000 exemplares que
nascem por ano e que não são utilizados como cães de
exposição, não se sentirão defraudados e
irremediàvelmente desapontados com os seus cães, quando
constatarem que as caracteristicas pelas quais elegeram
a raça desapareceram?
Todos as raças caninas foram criadas ou adaptadas para
uma ou várias determinadas funções, funções essas que
foram levadas em conta e que consequentemente
condicionaram o tamanho, osso, cabeça, resistência,
elastecidade, musculatura, pelagem, cor(es), e coragem
dos seus exemplares, em suma, o seu porte e caracter,
não se criaram Mastiff’s para caçar ratos, nem
Manchester Terriers para levar para a guerra com
armaduras de 30 quilos. Não seria mais lógico, que em
vez de tentar alterar o estalão de uma raça com um fim
devidamente definido, e já que oficialmente existem mais
de 350 raças de canideos, escolher uma outra que fosse
ao encontro ou preenchesse as pretensões desses
criadores, deixando esta para quem quer realmente criar
e possuir verdadeiros Rhodesian Ridgeback’s?
César de Castro Martins
Criador amador da raça Rhodesian Ridgeback com o afixo
“Quinta de Ferdais, reconhecido pelo CPC e FCI, fundador
e Presidente da Direcção do Rhodesian Ridgeback Clube de
Portugal.