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WORLD CONGRESS - 2008

Um olhar sobre o World Congress 2008 - Irlanda

Depois dos congressos da África do Sul (1984), Dinamarca (1988), Inglaterra (1992), Austrália (1996), Holanda (2000) e Estados Unidos da América (2004), coube agora à Republica da Irlanda ser o anfitrião do Congresso Mundial da raça Rhodesian Ridgeback.

Desde Inglaterra que marco presença constante neste evento, sempre a expensas próprias (informação gratuita mas que quero prestar, cá por coisas), embora nas últimas duas edições me tenha apresentado como delegado oficial do RR Clube de Portugal, tendo apresentado candidatura inclusive do nosso pais à organização do evento, respectivamente para os anos de 2012 e 2016.

Infelizmente mais uma vez perdemos, se em Fort Worth era esperado ficar em segundo devido à forte presença dos Canadianos, já que também eram candidatos, estavam em grande número e eram de ali mesmo ao lado, na Irlanda esperava ganhar. Não ganhamos essencialmente porque me encontrava completamente só, no meio de 152 delegados, em contraste com os 14 representantes dos países Escandinavos, ainda por cima maioritariamente senhoras, que não se pouparam a esforços para angariarem apoiantes para a sua candidatura durante todo o congresso.

Perdi bem, embora por uma diferença mínima (63/57), ficando no entanto com a firme certeza que se nos recandidatarmos ganhamos com certeza, tal a quantidade de pesos pesados que desde logo me incentivaram e me prometeram apoio numa próxima candidatura, Lyz Megginson (Glenaholm – R. South Africa), Dorothy and David Grayson-Wood (Isiqa - presidentes honorários do RRCGB - England), Clayton Heathcock (Camelot - USA), Jack Selby (Eilack – England), Richard van Aken (Cartouche RSA), os presidentes do RRCUS (USA) e RRCC (Canada), entre muitos outros.

A minha apresentação era muito melhor que a Escandinava e foi muitíssimo elogiada, inclusive para tentar inverter a situação, tive o auxílio da Vanessa Moyano (Molema Mua Roo) representante de Espanha. Concordamos, para dar mais força à candidatura, que embora realizada em Portugal, esta abrangeria e seria apresentada como da península Ibérica. Também o David presidente honorário do RRCGB fez o favor de fazer a introdução da candidatura Ibérica, levando consequentemente atrás dele, a maioria dos Ingleses e Americanos, salvo claro, os que já estavam comprometidos com a candidatura Escandinava, principalmente pelo facto de a votação ser feita de braço no ar. Tudo isto no entanto, e infelizmente, não foi suficiente para vencer.

A apresentação, executada em tempo recorde pela minha amiga Guida Rodrigues, isto depois de sem ninguém o esperar, me ter falhado dias antes a pessoa que estava indigitada e encarregada, desde alguns meses atrás, de a fazer. Tendo sido concluída, já bem tarde, na tarde anterior ao dia da minha partida. Para a finalizar, tive ainda a ajuda dos meus amigos Paula Botelho, João Gonçalves, e de alguns dos seus funcionários, principalmente dando dicas e opiniões e arranjando material de suporte na net.

O Congresso, é sempre uma jornada/acontecimento importante para a raça, e para o fortalecimento de alguns bons laços e relacionamentos (eu disse alguns), existentes entre criadores. É cumulativamente uma passagem de conhecimentos e testemunho entre os da antiga e da nova geração, principalmente para aqueles, que embora acabados de chegar, querem beber conhecimentos dos mais velhos e experientes, sem terem a pretensão de que já sabem tudo.

Foi batido o recorde de delegados e de países participantes, 152 delegados de 26 países, a delegação mais numerosa era da Inglaterra com 36 delegados, seguindo-se os Estados Unidos da América e Canada com 15 delegados cada, a anfitriã tinha 13 delegados, a Holanda e Alemanha contaram com 10 cada, Austrália 8, Noruega 7, África do Sul e Bélgica 5 cada, Irlanda do Norte 4, Suécia e Dinamarca 3 cada, seguindo-se um grupo de diversos países com 2 delegados, Nova Zelândia, França, Polónia, Eslováquia e Itália, finalmente os países com um só delegado como Portugal, Escócia, Finlândia, Barbados, Espanha, Israel, País de Gales e Suiça.

Para além do falecido Stig Carlsson, mais uma vez foi muito notada a ausência do casal Wallace, a Margareth e o Sam (Mushana), um casal de referência na raça não só pela reconhecida qualidade dos seus exemplares, como ainda, por terem sido os lideres e pilares do Parent Club durante os últimos 25 anos. Infelizmente, devido à situação e aos acontecimentos que tem fustigado o Zimbabwe nos últimos anos, desde o congresso da Holanda que não contamos com a sua sempre agradável presença.

No programa constavam diversas apresentações/palestras, algumas bastante interessantes e com sobeja importância, desta vez, assim se espera, alguns desses assuntos depois de devidamente trabalhados, trarão  decididamente largos benefícios para a raça. Foram ainda discutidas diversas matérias de alguma premência, cuja clarificação era deveras importante, tendo inclusive, sido finalmente arredada a patética ideia apresentada no ultimo congresso do Texas, de se caminhar para duas raças com estalões diferentes. Consequentemente, e como mais abaixo daremos conta, foi nomeada uma comissão para reajustamento do estalão da raça.

Durante o chamado Icebreaker ou Welcome drink, os participantes reviram-se e apresentaram-se através de amigos ou directamente aos congressistas estreantes, foi um período agradável, não fosse o caso de paralelamente, a dado momento, terem posto à venda o “ Congress merchandise”, o que retirou quase de imediato aquele clima de serena confraternização, passando-o de imediato para um do tipo “feira”.

Por falar em mercadoria para assinalar o congresso, mais uma vez se pecou por falta de originalidade e quantidade, logo após o tal “Icebreaker” deixaram de existir as T-shirts, os Pólo shirts e os Regata jackets do evento, nas medidas medium, large e extra large, restando somente alguns números small e XX large, para além de, tirando o material já mencionado, só existirem baseball caps, lenços de senhora que nada tinham a ver com o evento e mais outras quinquilharias sem qualquer nexo.

Para os fumadores a vida na Irlanda está insuportável, para já durante todos os quase 6 dias só não choveu ou chuviscou por 5/6 horas, diariamente tínhamos chuva forte durante períodos de 30/45 minutos pelo menos duas vezes ao dia, por 3 vezes pensei que era desta vez que ia acontecer um novo dilúvio. O sol, esse só o vislumbrei por uma vez e num espaço de 2/3 horas, agora, se acrescentarmos que não se fuma, nem nas zonas publicas do hotel, nem nos carros alugados, nem nos quartos, nem em restaurantes ou bares, ficando exclusivamente com a rua para fumar, num clima daqueles, realmente os fumadores que não morrerem de câncer dos pulmões, de pneumonia vão morrer com toda a certeza. A organização, principalmente a cargo dos meus amigos Dennis Boyd e do Tony Lord Edwards esteve simplesmente impecável, tudo foi feito para que os congressistas se sentissem bem e que tudo estivesse em ordem, tanto aquando da chegada, como durante as sessões de trabalho, como ainda durante os jantares, inclusive, no próprio dog show (indoor), tudo estava agradavelmente bem organizado, tudo foi sem dúvida o fruto de um trabalho intenso, apaixonado e muito cuidado, para que tudo desse certo e todos se sentissem bem.

No primeiro dia de trabalhos, a primeira oradora foi a Ann Woodrow (Mirengo), uma das mais conceituadas criadoras do Reino Unido, autora de um dos melhores livros sobre a raça, dona e criadora do mítico “Mandambo”, considerado um dos melhores exemplares da raça de sempre. A sua intervenção foi uma chamada de atenção para o actual standard, as suas actuais incongruências e a necessária revisão urgente que se deve fazer. Definitivamente arredou-se a tal ridícula ideia dos dois estalões/duas raças, concordou-se em não aumentar a altura ao garrote (61/66 – 63/69), e por outro lado até limitar o mínimo e máximo aceitável (59/68 – 61/71), aumentou-se o peso ideal em cerca de quatro quilos tanto para machos como para fêmeas (32/36 para 36,5/40,5), deixando-se no entanto, por ainda insuficiente, agora que parece finalmente arredada a ideia de criar cães agalgados (75cm/37 kg), para a tal revisão do estalão, a fixação de um peso ideal mais realístico.

Em virtude de alguns desenvolvimentos e interferências no que concerne à raça, principalmente por parte do KC, resolveu-se ainda que num próximo estalão, seria vincado a total desqualificação de cães sem risca ou coroas, ou com uma ou mais que duas coroas, ou ainda com graves dissimetrias das coroas, inclusive, limitando-se essa mesma dissimetria. Na generalidade a apresentação foi bastante interessante e muito bem conduzida, ou não fosse a oradora uma das pessoas mais conhecedoras e bem cotadas na criação da nossa raça de eleição.

Seguidamente falou a Dra. Carmel T. Mooney, especialista em endocrinologia de animais pequenos, a sua palestra centrou-se numa área preocupante para algumas raças caninas de grande porte, o hipotiroidismo canino, felizmente esta doença ainda não afecta gravemente a nossa raça. Foi uma apresentação técnica muitíssimo interessante, não só porque a oradora sabe profundamente do que fala, como ainda, por nos ter sido dado a conhecer os últimos desenvolvimentos, quer a nível clínico quer a nível de medicamentos, para ultrapassar esta situação. Seguiu-se um “coffee break”.

Seguiu-se antes do almoço uma palestra pela Dra. Gudi Stuttard uma veterinária nutricionista da Royal Canin (patrocinador do evento), o tema abordado, como não poderia deixar de ser, foi nutrição animal, com especial incidência para cadelas em gestação, e para os períodos antes e pós parto. Foi deveras interessante ouvir os conceitos e aconselhamentos desta veterinária, os avanços tecnológicos e científicos da industria alimentar dos pequenos animais, inclusive, tomar conhecimento de experiências e resultados alcançados na nutrição de cachorros e de cadelas no período de aleitação, pese embora o facto da Dra. Gudi estar em representação de uma marca de rações. Seguia-se o almoço.

Bem, neste caso, almoço para o ”ZÉ” Portuga, e parece que também, para a ” MARICARMEN” Espanhola, não pode ser uma sandwich e um muffin, acompanhados de uma embalagem de sumo e palhinha dentro de um saco de papel, consequentemente, resolvemos eu e a Vanessa, ir almoçar decentemente (?), só que mesmo no restaurante do hotel, a lista de opções era fraquíssima, existindo de uma forma diária somente 5 opções, um prato de “carnes frias” incluindo o afamado rosbife, outro de frango (alternando unicamente o modo como era confeccionado), um de carne (assada no forno), o Irish stew, e um prato de peixe (salmão, perca ou bacalhau), o grande problema eram  os acompanhamentos, em todos os pratos, salvo no Irish stew, serviram sempre o mesmo, puré de batata, batata assada, cenoura e ervilhas ou feijão verde ao vapor, o que convenhamos é uma desagradável monotonia. Durante a tarde a primeira apresentação esteve a cargo de Denise Flaim do Rhodesian Ridgeback Club of United States, esta senhora veio apresentar um programa informático, ao qual o RRCUS aderiu, que como inovação tem o facto de o criador se inscrever, inserir o pedigree dos seus exemplares, informar e inserir todas as doenças e dados deles, ninhadas, qualidade de exemplares nascidos, doenças, deformações etc., garantindo que após 2/3 gerações, esse programa para além de guardar todos os detalhes dos exemplares do criador, também dá aconselhamentos sobre que cães cruzar e com quem.

Por mim, achei de uma certa inutilidade e exagero tudo aquilo, muito mais, quando informaram que para se fazer parte do programa e para manutenção dos dados, se teria que pagar cerca de 470,00€/anuais. O único dado engraçado que retive desta intervenção, foi o gráfico alturas/pesos dos cerca de 1250 exemplares inscritos, o mais baixo era uma cadela com 58 cm, e o mais alto um macho com 81cm, a menos pesada uma cadela com 29 kg, e o mais pesado um macho com 79kg (não é o macho de 81 cm, esse pesava sómente cerca de 58 kg).

De seguida fez a sua apresentação a Dra. Nicolette Salmon Hillbertz, uma cientista sueca que ao longo dos últimos anos tem estudado afincadamente as doenças específicas da raça, a origem da risca e outras peculiaridades. Foi sem duvida um dos momentos mais altos do primeiro dia, tendo inclusive gerado uma forte troca de opiniões/discussão durante o fórum deste dia. A Dra. Nicolette apresentou provas concludentes, aliás, foi a base da sua tese de doutoramento com o nr. 2007:133 “A mutação dominante, que causa a risca dorsal, predispõe a aparição de quistos dermóides no Rhodesian Ridgeback” na Universidade Sueca de Agricultura , ou seja, uma das doenças mais peculiares da raça, o quisto dermóide, é uma consequência da própria “ridge”, mais, se forem feitos cruzamentos entre cães com e sem ridge , poderemos em 3 gerações erradicar o “Dermoid Sinus”. Tal situação como devem calcular não foi nada pacífica, pois se o Sinus é uma praga principalmente nos USA e Austrália, cruzar cães sem risca iria aumentar significantemente o numero de nascimentos de cães “Ridgeless”, o que iria descaracterizar a própria raça, já que a “ridge” é a sua “marca de origem”.

Após o coffe break, e durante o fórum aberto desse dia, surgiram duas situações pertinentes, a primeira dizia respeito à situação actual no Zimbabwe, onde está sedeado o “Parent Club” e à necessidade premente de se actualizar/alterar o standard da raça (alterado na Austrália em 1996), ora com a ausência de representantes do Zimbabwe, onde está sedeado o Parent Club , e na impossibilidade de ser o KUSA (Kennel Union of Southern Africa) a apresentar essa actualização, ficou decidido que se criaria uma comissão, que para além da realização desse trabalho, em nome do próprio World Congress, endereçaria carta à FCI onde exporia a nossa delicada situação, ou seja, em virtude da inactividade forçada do Parent Club por motivos políticos, e na subsequente impossibilidade de apresentação de alterações ao estalão, solicitar que seja autorizada temporariamente essa comissão a fazê-lo em sua substituição.

Foi encarregue a Lyz Megginson (Glenaholm), de convidar seis outras pessoas para essa comissão, neste momento penso saber alguns dos nomes, senão todos os que foram convidados, Dorothy Grayson-Wood (Isiqa), Clayton Heathcock (Camelot), Richard van Aken (Cartouche), Olive Taylor (President RRCC), Ann Woodrow (Mirengo), Sam Wallace (Mushana).

Logo de seguida estalou o verniz, como devem saber para que um clube se possa filiar no Kennel Club, para além de ter que formalizar toda a papelada burocrática necessária a nível administrativo, tem que em seguida solicitar a sua aceitação no KC, para isso, tem que apresentar o seu plano de implementação, de trabalho, carta de intenções e um código de ética. Só após aceitação destes documentos pelos respectivos comités é que o clube fica filiado e membro de pleno direito. Acontece que o Midland & Northern RR Club, no seu código de ética aprovado em meados dos anos 80, tem um parágrafo onde preconiza que todos os cachorros que nasçam com “ridgeless”, ou com grave dissimetria nas coroas, devem ser abatidos.

Ora acontece que as Associações dos “Direitos dos Animais”, após terem sabido das conclusões do estudo que indica ser a ridge uma das causas do “Dermoid Sinus”, imediatamente pressionaram o KC para que exigisse a imediata retirada desse paragrafo do código de ética, já que tal, neste momento, já não faz qualquer sentido. Como soberbos negociadores/diplomatas que são (os Ingleses), quem está à frente desse comité no KC, logo escreveu uma carta ao Midland & Northern RR Club exigindo a retirada desse paragrafo, e informando inclusivamente que dado os resultados de estudos recentes, eles KC, passariam a autorizar e dar pedigree a exemplares resultantes de cruzamentos entre exemplares possuidores de risca e sem ela, aconselhando e incentivando vivamente até esses cruzamentos, face aos resultados desse estudo, tudo na perspectiva de erradicar o “Dermoid Sinus” da raça.

E a casa veio abaixo, mandaram-se ao representante do KC como se não existisse amanhã, nem pensar em retirar uma coisa que estava aprovada, muito menos, e isso é que era absolutamente impensável, autorizar cães “Ridgeless” a cruzar e a obter pedigrees para os seus cachorros, se assim acontecesse dentro de 6/7 gerações quase não existiriam cães com ridge. Habilmente, o representante do KC conseguiu negociar e arranjar uma situação de compromisso quase “in loco”, eles, Clube, comprometiam-se a retirar de boa vontade o tal paragrafo, e ele generosamente intercederia, até porque compreendia  muito bem a nossa situação, junto das mais altas instâncias do KC, para que fosse revista a tal situação de ser autorizado procriar com cães “Ridgeless”, um verdadeiro “artista”.

E chegou o jantar Irlandês, razoavelmente bem servido, foi agradável, na minha mesa para além da Vanessa estiveram, os Eslovacos, Holandeses, o Georg Marek, uma Inglesa e uma Belga, as senhoras beberam bastante bem, salvo a Vanessa e a Eslovaca, no final estava tudo muito alegre e feliz, salvo a rapaziada do Sul e os Eslovacos que beberam com moderação. No segundo dia, em vez de se começar com a apresentação da Lindsey Barnes, por não conseguiam abrir o seu ficheiro com os vídeos, substituíram-na pela apresentação de um jovem americano de nome Matthew Valdivia que diz ser caçador (na América?) com Rhodesian’s. A sua apresentação versava sobre “Restaurar funcionalmente o Rhodesian Ridgeback”, também aqui, e mal acabou a projecção dos seus ficheiros de vídeo, instalou-se a “borrasca”, aquele jovem esqueceu-se completamente que naquela sala, contrariamente ao que deve suceder nos States, estavam alguns participantes que caçaram realmente “caça grossa” com Rhodesian´s e em África, e que inclusivamente não eram tão amadores quanto ele. O primeiro vídeo, aquele em que me insurgi de imediato, sendo secundado, tanto por Ingleses como por Sul Africanos. Dizia respeito a um pseudo teste de carácter que os Escandinavos levam a cabo, só podendo ser obra de ignorantes sobre a raça, felizmente após a minha intervenção e do Scotty Stewart (ex guarda do Kruger Park), tiveram o bom senso de aceitar por completo o nosso ponto de vista.

O tal teste é feito como se o Rhodesian fosse um cão de guarda, consequentemente, só poderia dar aquele resultado. Passando a explicar, o dono encontra-se impávido e sereno com o cão à trela, dois figurantes com um enorme chapéu, e totalmente tapados por um pano branco avançam na sua direcção, à vez, vindos de lados opostos, o cão começa a ladrar para um e outro e a olhar para o dono que continua impávido, os figurantes continuam a avançar, o cão faz ameaças que vai atacar olhando sempre para o dono, mas este continua impávido, resultado, a maior parte dos cães não enfrenta os figurantes, mantendo-se ao lado do dono, e até existe um ou dois que fogem.

O que está errado? Primeiro o Rhodesian é um cão de matilha, portanto nunca trabalha isoladamente, aliás, um dos seus maiores atributos é saber trabalhar e caçar em grupo, segundo, o dono, em 90% dos casos é considerado pelos seus cães como o “líder” da matilha, portanto eles esperam sempre que ele assuma uma atitude condizente com essa condição, terceiro e não menos importante, depois de três ou quatro gerações de cães seleccionados principalmente por carácter altamente amistoso, criados e a viveram como “pets”, que nunca sequer foram treinados nem passaram por situações que os obriguem a defender o território da matilha, é lógico, e absolutamente normal, que tenham aquele tipo de procedimento.

A minha opinião e desafio baseia-se no seguinte, em vez de um, usem dois ou três exemplares, em vez do dono ficar impassível, ele que se mova, interaja e incentive os seus cães, garanti-lhes que se o fizerem, mesmo com o handicap de serem pets e nunca terem sido treinados para tal, os figurantes vão andar numa “roda viva” e não vão sair de lá “sem serem brindados”. Mais, desafiei-os a virem fazer o mesmo teste à minha quinta, inclusive sem a minha presença, eles é que escolheriam entre os Rhodesian’s que possuo, aqueles que lhes desse a ideia de terem o carácter mais condescendente e amistoso, acima dos 9/10 meses claro, e garanti-lhes que teriam resultados absolutamente opostos.

O segundo vídeo então era uma pura “chachada” feita por um autêntico amador, tratava-se de uma caçada real ao javali(zinho), o porquito não teria mais de 40/45 kg., o nosso caçador andava com três cães que nunca se tinham visto naquelas “andanças”, nem tinham sido treinados para tal, os machos ainda tinham uma postura mais ou menos correcta, tentando encurralar o animalzinho, a cadela, essa coitada, andava completamente à deriva, de tal forma, que depois do bichinho estar encurralado, passava pela frente dos machos e tentava morder-lhe, resultado, levou três focinhadas que a mandaram pelo ar, e que lhe seriam fatais se o animal tivesse um peso e presas decentes, mais grave ainda, o nosso pseudo caçador usava uma caçadeira com chumbo grosso em vez de carabina, só não tendo acertado no javali e nos cães ao mesmo tempo por puro “milagre”.

Foi então a vez da Lindsey Barnes com a sua intervenção centrada sobre “A importância de um bom movimento”, apresentou diversos vídeos de exemplares com belíssimos movimentos, na sua maioria trabalhos desenvolvidos por handlers profissionais, foi uma apresentação bastante interessante embora não viesse trazer nada de novo, em certo aspecto, até confirmou em grande parte aquilo que alguns de nós afirmamos, os excelentes e graciosos andamentos dos Rhodesian estão numa proporção inversa ao seu físico e funcionalidade, basta atentarmos, que é de todo improvável que um trabalhador braçal venha a ser um excelente e gracioso bailarino. Seguiu-se o habitual “coffee break”.

Seguidamente foi a vez do Dr. Tom Farrington, veterinário e homeopata, que desenvolveu e adoptou, diversos tratamentos homeopáticos ao mundo canino, como uma forma alternativa de correcção e manutenção da sua qualidade de vida. A apresentação foi extremamente interessante, foram apresentados sucessos concretos de tratamentos, levados a cabo exclusivamente com medicação homeopática, foram apresentados ainda diversos conceitos de tratamentos a ser administrados para diversas patologias, foram ainda dados nomes e aplicações de diversos medicamentos homeopáticos. Muitos deles, que já conhecia desde os anos 80 através da firma “Dorwest herbs”, firma que marca anualmente a sua presença no “Crufts”. Seguiu-se o almoço, mais uma vez acompanhado do tal puré, das batatas e dos legumes.

De tarde teve lugar a ultima apresentação a cargo da Dra. Shura Bugreeff, uma veterinária dos states, com o tema “Como facilitar a reprodução canina”, tema já debatido em congressos anteriores. Teve como única virtude, o ter feito a actualização a novos conceitos, métodos e tecnologias. Seguiu-se o fórum aberto, onde como atrás se disse foi nomeada uma comissão para revisão do estalão da raça, mais uma vez foi apresentada uma sugestão para tornar o congresso Bianual, o que irá sucederá brevemente com a apresentação do trabalho final da comissão de revisão dos estatutos. Finalmente o Canada fez a sua apresentação do Congresso 2012 em Ontário. Por ultimo, e antes do encerramento do congresso, tiveram lugar as apresentações dos candidatos ao congresso de 2016 e a respectiva votação, como já atrás referi. Nessa noite teve lugar o jantar de gala, em nada parecido com o dos Estados Unidos, sentiu-se o charme da velha Europa, o menu foi mais bem cuidado, o serviço teve bastante requinte, dois músicos, tocando harpa e violino abrilhantaram todo o jantar com musica tradicional Irlandesa, os convivas por sua vez estavam convenientemente vestidos. Foram feitos os agradecimentos da praxe, e contrariamente ao dia anterior, as bebidas foram consumidas com muito mais moderação. Na minha mesa, além da minha inseparável amiga Vanessa, estiveram Holandeses (insuportavelmente pedantes), o Georg Marek, uma Belga e uma Inglesa, à conta do pedantismo exacerbado de um dos casais, ainda consegui pôr a Inglesa e a Belga a rir de tal forma, que até sujou o vestido de gelado.

No dia seguinte realizou-se o Dog Show do Congresso, em machos ganhou o Georg Marek com o campeão IKIMBA WATIMU, um bonito exemplar, totalmente um show dog, que para mim pecava por insuficiência de cabeça, alguma falta de osso e de peso, mas com movimentos fabulosos, mesmo assim foi este o exemplar que acabou por ser o BEST In SHOW. Em cadelas ganhou o meu amigo Paul Hewson com a multicampeã REKAYLAHN BLAZE, para mim, muito mais equilibrada e muito mais Rhodesian que o macho, isto de um ponto de vista imparcial, mesmo tendo em conta que o Paul é um amigo de longa data. Abaixo podem ver fotos dos dois exemplares, que, e por si só, vos ajudarão a tirar qualquer dúvida, e a dar-me , ou não, razão pelas ilações que acima mencionei.

Veremos o que se vai passar com a revisão do estalão, e se finalmente o Congresso vai optar por um período entre congressos de apenas dois anos, se assim for, penso que Portugal está optimamente posicionado para ser um dos próximos organizadores.